“Blade Runner – Perigo Iminente” (Blade Runner no original) estreou em 1982 nas salas de cinema de todo o mundo e teve algum êxito nas bilheteiras. No entanto, seria o passar do tempo que viria a transformar este filme numa obra cinematográfica de culto, e numa referência dentro do género Ficção Científica/ Fantástico.
O argumento do filme baseia-se no romance com o título “Do Androids Dream of Electric Sheep?” de Phillip K. Dick (1928 – 1982), um dos mais célebres autores da literatura de ficção científica do séc. XX, responsável também por outras obras publicadas sob a forma de contos, que deram origem a outros filmes de relevo no género da ficção científica, tais como “Desafio Total” (Total Recall – Paul Verhoeven, 1990) e “Relatório Minoritário” (Minority Report – Steven Spielberg, 2002).
A acção passa-se na cidade de Los Angeles em 2019. A Tyrell Corporation é uma mega-empresa, na vanguarda da ciência e da tecnologia, que criou uma “raça” de humanóides, andróides idênticos em tudo aos seres humanos, conhecidos como “Replicantes”. Os andróides do modelo Nexus 6 eram fisicamente mais fortes e ágeis, e tão inteligentes quanto os engenheiros genéticos que os criaram. Por isso mesmo, foram utilizados durante muitos anos como escravos na exploração e colonização de outros planetas. Mas depois de uma revolta numa colónia extraterrestre, os modelos Nexus 6 foram declarados ilegais e condenados à morte no planeta Terra. As Unidades Blade Runner, brigadas especiais da polícia, foram então criadas para eliminar qualquer “Replicante” que detectassem…
Harrison Ford interpreta o personagem Rick Deckard, um desses agentes da brigada Blade Runner que se quer retirar, mas que fica encarregue de descobrir e matar um grupo de “Replicantes” que se tornaram criminosos. Após a neutralização de um agente Blade Runner na Tyrell Corporation, Deckard é enviado à empresa e conhece Rachael, uma andróide Nexus 6 que acredita ser humana, desconhecendo a sua natureza artificial.
Os modelos Nexus 6 foram criados para não sentirem emoções próprias dos humanos, como afecto, ódio, medo ou inveja. Mas algum tempo após a sua criação, os engenheiros aperceberam-se que tal começava a suceder. Para evitar tal, conceberam-nos com um prazo de vida de apenas 4 anos, como dispositivo de segurança. Mas Deckard fica a saber que Rachael é um modelo experimental, que os engenheiros criaram para iniciar a produção de “Replicantes” tão humanos que não se consigam distinguir dos verdadeiros humanos.
Com o decorrer do filme, vamos acompanhando a missão de Deckard para descobrir os “Replicantes” revoltados e tentar perceber o que os motiva, ao mesmo tempo que vai conhecendo melhor Rachael e acaba por se apaixonar por esta.
“Blade Runner” é um verdadeiro portento visual, misturando habilmente cenários reais repletos de néons e uma arquitectura neo-barroca (entre o gótico e o futurista), com excelentes efeitos visuais nas cenas aéreas da cidade à noite e na presença sempre constante e opressiva da publicidade das grandes corporações empresariais do futuro.
Este aspecto visual altamente estilizado viria a servir de referência e a influenciar muitos outros filmes do género, com especial relevo para “O Quinto Elemento” (Luc Besson, 1997) ou para o magnífico “A.I. – Inteligência Artificial” (Steven Spielberg, 2001).
Aliás, a direcção artística de David Snyder e a magnífica fotografia de Jordan Cronenweth imprimem ao filme um inconfundível tom negro, típico do policial negro dos anos 40, que se adequa na perfeição aos personagens e à história. Todo o filme se passa durante a noite, à excepção de uma cena inicial, em que vemos um belíssimo plano de um ofuscado pôr-do-sol a partir do interior da sala/gabinete do director da Tyrell Corporation onde Deckard conhece Rachael.
O argumento escrito por Hampton Fancher e David Peoples é de uma fluidez narrativa e subtileza, em que todos os diálogos estão próximos da perfeição, e no qual na maioria das vezes, de facto, uma imagem vale mais do que mil palavras.
Todos os actores têm sólidas interpretações, com destaque óbvio para Harrison Ford no papel de um agente policial competente e determinado, mas cansado da sua profissão e só, que acaba por descobrir o amor quando e onde menos espera. Sean Young é Rachael, a pacífica e inteligente andróide que acaba por perceber o que é, e se apaixona por Deckard, num registo de “underacting” de uma subtileza e beleza inesquecíveis. Finalmente, o actor holandês Rutger Hauer que interpreta o papel de Roy Batty, o letal andróide que lidera o grupo de revoltados e que vive obcecado com a sua própria mortalidade eminente, procurando por isso o seu criador, para conseguir que a sua existência seja prolongada. O duelo final entre Deckard e Roy é o clímax do filme, onde o diálogo entre ambos é excelente, sobretudo graças à magnífica interpretação de Rutger Hauer.
Claro que todos estes elementos se combinam na perfeição sob a soberba realização e direcção de actores de Ridley Scott, que confirmou a sua qualidade e mestria como realizador, após o enorme êxito de bilheteiras e também de crítica que tinha sido o seu anterior filme, a obra de culto “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979).
Finalmente, a inconfundível banda sonora original composta e criada por Vangelis especificamente para este filme, e que viria a ser “som de marca”, neste caso, desta obra irrepreensível, que é e será sempre sem dúvida alguma um objecto cinematográfico de culto e um filme indispensável para qualquer amante de cinema que se preze.
Monday, January 22, 2007
Thursday, January 18, 2007
O Ilusionista
Vale a pena ir ver este filme. A história é interessante e as interpretações de Edward Norton e Paul Giamatti sólidas e convincentes. Jessica Biel consegue neste filme talvez a personagem mais interessante da sua curta e insípida carreira como actriz. Mas o que mais se destaca neste "O Ilusionista" é, sem dúvida, a magnífica recriação de época, neste caso a belíssima Viena de 1900. Tudo, desde a direcção artística, passando pelo guarda-roupa e a excelente fotografia, contribuem também para nos ambientar nesta atmosfera de conto, entre a fábula e a realidade, exibindo um estilo gótico-romanesco muito sedutor. Os números do ilusionista (Edward Norton) conseguem surpreender, apesar de sabermos que estamos perante uma obra cinematográfica de ficção, e não num teatro real, isto graças à utilização acertada dos efeitos especiais apenas nas cenas onde são necessários... E mostra que para se fazer um belo filme de época não são necessários orçamentos astronómicos. Não será uma obra-prima, mas no conjunto este resulta ser um interessante e sedutor filme, que se destaca da maioria dos filmes medíocres que nos chegam às catadupas às salas portuguesas, e que por isso merece ser visionado.
Nos Bastidores da Rádio
Um filme que trás a nostalgia dos tempos em que a rádio era o meio de comunicação e entretenimento caseiro, que toda a gente ouvia com dedicação e apreço... Já não é propriamente do meu tempo, que cresci já nos tempos aúreos da tv, mas este novo filme de Robert Altman recria tão bem esse espírito de entretenimento e dedicação à arte radiofónica, que fiquei de facto com vontade de `regressar atrás no tempo` para o poder apreciar na rádio. Ainda mais numa comunidade do interior dos Estados Unidos, onde parece que o tempo parou. Este filme coral de Altman mostra que o mestre ainda não perdeu o toque nem a marca autoral que o caracterizam. Mas neste caso, fá-lo com uma contemplação e reflexão belíssima e poética sobre a celebração da vida, mas sobretudo do fim das coisas, da morte (personificada por uma radiosa Virginia Madsen). O filme está pejado de piadas engraçadíssimas e que nos fazem soltar um sorriso ou gargalhada espontãneas. O seu ambiente teatral também nos transporta para aquele teatro/estúdio onde decorre a acção, e nos faz ter carinho e admiração por aqueles artistas... Um filme que sabe bem ver, por sair da `onda publicitária e comercial` dos grandes estúdios da maioria das películas norte-americanas.
Marie Antoinette
Este filme de Sofia Coppola (o seu terceiro como realizadora) é um belo e sincero retrato sobre uma menina/mulher que é largada num mundo superficial, fútil e pedante (a corte francesa do final do séc. XVIII); que consegue de algum modo adaptar-se, mas nunca completamente, e que tem um fim trágico que não merecia. É certo que é uma obra magnífica a nível visual (guarda-roupa, direcção artística e sobretudo fotografia), mas não pretende ser um retrato histórico rigoroso e clássico, no sentido do termo. E a peculiar (e boa) banda sonora, a introdução de elementos contemporãneos, como os ténis e a cena da dança no baile de máscaras mostram bem essa intenção. O que interessa neste filme é mesmo a personagem principal, Marie Antoinette, e o que foi a viagem daquela desde a sua Áustria natal até à corte francesa e ao título de rainha de França. O que teve de suportar, desde os mexericos da corte; à carência de afectos por parte do homem de quem se tentou aproximar (o rei, seu marido); até ao sentimento de solidão apesar de sempre rodeada de pessoas ou alguns amigos, isto tudo tendo em conta a sua tenra idade. A actriz Kirsten Dunst tem uma notável interpretação, que merece pelo menos uma nomeação ao óscar de melhor actriz... Este filme mostra também que Sofia Coppola foi de uma grande coragem e sensibilidade ao abordar uma personagem histórica deste calibre, de uma forma original e fresca, sem cedências de qualquer tipo, mostrando apenas a sua visão.
A Dália Negra

O último filme de Brian De Palma é, sem dúvida alguma, uma excelente homenagem e, ao mesmo tempo, um objecto cinematográfico que recorda o clássico `film noir` (típico dos anos 40) com uma componente estética espessa e magnífica, não só a nível de fotografia e direcção artística, mas sobretudo através da soberba realização. Os planos abertos, os ângulos e movimentos de câmara, que nos remetem para o estilo próprio deste realizador, sobretudo em filmes como `Os Intocáveis`, ou o clássico `Vestida Para Matar`. A atmosfera densa e negra que percorre o filme acaba por nos atingir, mesmo sem nos apercebermos... Depois de sair da sala, as imagens tão bem filmadas por De Palma ecoam na nossa cabeça, como flashes de uma história horrenda de crime macabro e desprezo pelo ser humano. Sim, porque (quase) todos os personagens desta história têm enterrados obscuros segredos, dos quais nos vamos apercebendo com o decorrer da acção. O casting, na minha opinião, foi bem feito... Josh Hartnett tem uma das interpretações mais interessantes da sua carreira; Aaron Heckhart também é competente, mas nunca surpreende; Scarlett Johansson não está mal, mas esperava bem melhor... a personagem que lhe deram talvez não se prestasse a mais (a sua personagem em `Match Point` é bastante mais marcante). Quem de facto está surpreendente são Hillary Swank, numa femme fatale inesquecível num papel em que ainda a não tínhamos visto, e Mia Kirschner no papel da vítima do caso à volta do qual tudo se desenrola, que vem mostrar também no grande écran (assim como na tv com a excelente série `A Letra L`), como consegue dar vida e densidade a personagens sofridas e perdidas no seu próprio mundo... magnífica! Um bom filme, cujo único senão talvez seja, tudo se precipitar para um final muito rápido e um pouco confuso.
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